Vamos conversar sobre as margaridas mórbidas

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Está nas mãos dos roteiristas – se a greve do sindicato deles demorar bastante para cessar, então o nono episódio de Pushing Daisies, exibido a duas semanas nos Estados Unidos, provavelmente será a season finale da série. Se o contrário acontecer e estúdios e roteiristas entrarem em acordo o quanto antes, então teremos novos episódios antes de o final da temporada televisiva ser ditado pelo calendário. Aconteça o que acontecer, já é tempo para dissertarmos sobre a série, ao mesmo tempo popular e cult, e que recebeu o aval das premiações com três indicações ao Globo de Ouro.

Pushing Daisies ainda não é parte da programação da Warner (será a partir de janeiro), mas já tem fãs ardorosos aqui no país. Navegando o mínimo possível em blogs ou fórums da internet brasileira, percebe-se que há um fenômeno, uma adoração e uma torcida que pode ser a maior desde a estréia de Lost. Minha afirmação será confirmada caso, em janeiro, ocorra o esperado delírio entre os telespectadores ainda leigos nos assuntos da série. E será muito difícil não acontecer. Aquelas margaridas têm poder.

Para descrever a série, o melhor adjetivo é eufêmico. Não pelo motivo evidente (o título da série é um eufemismo para “morrer”), mas por todos os outros motivos. Quando vi o episódio piloto pela primeira vez, lembro que pensei “Quanto exagero visual!”. Quando vi o segundo episódio, pensei “Quanto exagero interpretativo desse elenco!”. Veja bem: eu nunca pensei negativamente desse exagero; pelo contrário: o segundo episódio é o meu favorito até agora. Mas justamente após a segunda exclamação (nada ranheta, repito) quanto ao exagero, comecei a rever meus conceitos. Não há exagero ali. Se a imagem ou o elenco vozeiam com muita cor, sabor ou cheiro, se a Kristin Chenoweth chegou agir como personagem de um musical, é porque a embalagem necessita tapear os nossos sentidos para ser deliciosa.

Um dos pontos cruciais é a narração, alguém pode apontar, e eu concordo. Eu já me peguei distraído enquanto o Jim Dale falava do passado do Ned ou começava aquela ladainha de “The facts were these…” - e que Deus abençoe os torrents e os players de vídeos que nos possibilitam voltar a imagem para não perder nada. Essa distração é porque Pushing Daisies pode também ser uma anfetamina, um acesso ao I-Doser ou o que você preferir para exemplicar “viciante”. A si, a série adiciona fãs e adoração. Não dá para evitá-la, desgostar completamente ou ignorar a dose semanal de fofura.

Acho que este é ponto certo, então, para contar como eu vi a série durante esses nove iniciais episódios. Apesar do que falei acima, de a série ser irresistível, ela o foi quando a estava assistindo. Diferentemente de Chuck ou Desperate Housewives, eu não ficava com vontade de ver o episódio antes de começar. Quando eu apertava o play, porém, o prazer era ímpar. Os dois últimos episódios mesmo, os quais eu vi de uma vez só, desceram também de uma vez só. Botão de pausar? Esquece. Mas isso é bem pessoal, e recordando o que eu disse mais ao início, que a série tem vários fãs, eu acho que esses não pensam do mesmo jeito. Esses madrugam para pegar o torrent.

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Fica difícil, em meio a tanta gente falando bem e a doses de açúcar tão agudas, pensar, refletir a série. Muita gente não faz questão. Tem gente que fica feliz na hora, vomita elogios na hora, diz que séries não devem ser pensadas muito a sério e certamente irão votar no Globo de Ouro dessa forma, com esse pensamento. Vai entender. Não que seja uma questão de levar Pushing Daisies muito a sério, mas é quase isso. Sou da turma que acredita que boa ou relevante arte deve ser aprofundada. Deus me livre da pretensão e da arrogância, mas há o que ver em Pushing Daisies. Há o que analisar.

As qualidades são fortes e múltiplas, só que há também os contrapontos não tão positivos assim. Quase tudo na televisão e no cinema, que interessa, é assim.

Os problemas de Pushing Daisies ficaram bem claros para mim no último episódio exibido, o nono. Sabe-se que ele foi reescrito várias vezes para que pudesse ser encarado como uma season finale, e o resultado foi exatamente este: um episódio cheio de coisas, bagunçado e com remendos e adendos visíveis. O ruim de um episódio claramente problemático como esse é que ele abre as portas para que percebamos os problemas já existentes, mas maquiados por o que quer que seja. A série, até agora, tinha tido apenas um episódio claramente fraco do nível deste – o quarto.

É chato ir justo naquele ponto óbvio, mas se é o jeito… Eu detesto reclamar de narração. Eu detestei aquele povo dizendo que Tropa de Elite tinha muito texto em off. E eu defendi a narração de Pushing Daisies desde sempre. Mas quando eu comecei a perceber que faltava a série profundidade, tornou-se inevitável.

Primeiro, eu olhei para os personagens. O problema não era com eles. Tudo bem, eu também fico incomodado quando às vezes Ned e Chuck são os únicos elementos de conto de fadas na série, mesmo com tudo em volta beirando ao absurdo. Mas eles têm sentimentos, mesmo quando são caricaturas – e eu sou osso duro de roer para admitir que caricatura tem sentimento, como estou fazendo agora.

Quando finalmente olhei para a narração com cuidado, matei a charada: há simplesmente texto demais, tão demasiadamente que sufoca a série. Não me incomoda que haja narração inútil, já que a opção narrativa na série é por ser guiada pela narração; o que incomoda é que ela fique demais fornida de palavras. Às vezes, precisamos apenas olhar para os personagens pensando, ou então ver a sutileza de um diálogo. Quando não dá para fazer isso por causa da narração, a narração deixa de ser narração e vira intromissão problemática. Aqueles personagens nem sempre são tão profundos quando deveriam ser porque a embalagem é inflada. Pode ser engraçadinha e bem feita pelo Jim Dale, mas é também obesa.

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A Pushing Daisies, também falta engrossar o caldo em alguns momentos. Deixe-me recorrer ao nono episódio mais uma vez, caro leitor. Nele, houve menção tanto ao aquecimento global quanto ao sistema de saúde tão criticado dos Estados Unidos. Então, penso eu, a série não é tão alheia ao que anda acontecendo no mundo, certo? Se esse for o caso, o tom absurdo e corajoso precisa ser um pouquinho maior. Há desperdício de tempo mostrando o quão gostosas são as tortas que o protagonista faz, o quão fofinho e cute-cute é o romance entre este e a morta-viva e há menções redundantes nos flashbacks. Convenhamos: Pushing Daisies já foi e voltou em excesso no romance central, na vida das tias (? Shhh…) de Chuck e também no passado de Ned. Não há desenvolvimento narrativo necessário para que os personagens cresçam.

Para isso, eu via duas soluções. A primeira seria colocar algum personagem fixo que, para combinar com o lado absurdo da série, fosse, digamos, dantesco. Eu suspeito que os roteiristas tenham pressentido isso e aquela criatura subterrânea de olfato apurado tenha sido um recurso nesse sentido. Ainda assim, continuo no aguardo do próximo passo, quando aquele choque provocado pelo visual feio do personagem (se eu fosse mudar alguma coisa nele, seria apenar para colocar uma giba e pronto, nada mais) passe também às ações deste. Espero que aconteça.

E a outra solução aconteceu no último episódio, naquele cliffhanger forçado, e eu não duvido nada que tenha sido inventado de última hora (aquilo é coisa de soap, e a série não tinha mostrado nenhuma porção disso até aquela hora, nem mesmo no cliffhanger do penúltimo episódio, já que aquilo acontece em qualquer série). Não se preocupe que eu não revelarei o que aconteceu, mas digo que fiquei descontente pela forma como veio. Eu queria algo que mudasse completamente a narrativa, cronica e definitivamente, abrindo novas possibilidades de renovação para tudo na série. Nunca achei que isso viria de um modo nada original, como aconteceu, já que Pushing Daisies sempre passou a sensação de ser uma série que curtia ser taxada de original.

E ela até é. De coração. Não interessa que eu não goste da Anna Friel – eu adoro a Kristin Chenoweth, o Lee Pace e o Chi McBride. Eles mais que compensam. Eles fazem eu prometer, jurar, trejurar, que tudo o que eu quero é transformar as reclamações desse texto em elefantes brancos quando a série voltar.

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